Durante sua estada em Los Angeles, Zelito falou com exclusividade a Chiques & Famosos sobre os desafios em trazer o filme à tela e de como foi dirigir o filho Marcos Palmeira.

 

Marcos Palmeira com certeza não decepcionará as fãs na cena do uiarupu, em que apareceu nu.

Zelito Viana - (Risos) Trabalhar com o Marquinhos foi ótimo. Ele ajuda demais o filme. É uma pessoa extraordinária, não é por ser meu filho, não, mas todo mundo que trabalha com ele diz a mesma coisa. Ele se dedicou a este filme de uma maneira brutal, aprendeu até a tocar violoncelo efetivamente. Mergulhou no personagem com todas as forças possíveis. Dedicou quatro meses da vida dele ao Villa-Lobos. Ele se transformou no personagem. Na verdade ele é o Villa-Lobos.

C&F - E como é ter como nora Ana Paula Arósio ?

Zelito -É o máximo. Ela é uma pessoa extraordinária. Alem disso, é linda. Acho que o Marquinhos está muito feliz. Ela é um amor de pessoa, companheira e solidária. Estão sempre juntos, ela gosta das coisas de que ele gosta e acho que, apesar de serem duas pessoas famosas, o relacionamento deles deu certo. São duas pessoas que se amam muito. Eu tenho a impressão de que são almas gêmeas. Eu torço para que tudo dê certo.

C&F - Por que escolheu Los Angeles para a projeção especial?

Zelito - O filme tem muita coisa a ver com Los Angeles. Nós filmamos no Brasil, mas em Panavision e com os figurinos alugados dos estúdios da Warner e Paramount. O engenheiro de som e o maquiador vieram daqui. Esta minha viagem foi para finalizar todos os aspectos de pós-produção, que foi feita aqui. Fui ajudado por diversas pessoas da comunidade cinematográfica, incluindo o autor e roteirista Syd Field, que desde o início vem acompanhando o desenvolvimento do roteiro. É bem agradável trabalhar com cinema aqui porque faz parte do cotidiano das pessoas. Tem-se um nível de competência alto.

C&F - E por que o Villa-Lobos como tema do filme?

Zelito - Me interessei basicamente por sua música e fui procurar descobrir a pessoa que estava por detrás dela. Fizemos por volta de 200 horas de entrevistas com todos que o conheceram aqui, no Brasil, na França, e inclusive em Cuba, onde famos falar com a viúva do escritor Alejo Carpentier, que curiosamente foi o crítico de música que mais o ajudou. Falamos também com o advogado do desquite, que coincidentemente foi o meu sogro, que morreu. Montamos uma grande pesquisa em torno da vida dele e fizemos uma biografia como um grande argumento de umas 500 páginas e daí saiu o roteiro. Passamos dois anos para chegar na biografia e outros dois para sair dela e chegar a estrutura do roteiro.

C&F - Após a extensa pesquisa, o que mais o supreendeu em Villa-Lobos?

Zelito - Sua personalidade, que era bem controvertida. E, na opinião, ele era doido. Quando se trata de um grande artista como ele, corre-se sempre o risco de ser alguém em que a vida não teve muita peripécia para criar trama para um filme. Mas Villa-Lobos tinha uma vida extremamente rica e só descobri isto depois. O engraçado é que fizemos um levantamento dos adjetivos com que ele foi xingado ou elogiado e vai desde gênio a idiota, de maravilhoso a um grande f.d.p. As pessoas que o conheciam dizem que um detalhe característico dele é que ficava constantemente escrevendo música. E aquilo devia ficar pertubando a cabeça dele. Me lembrou muito o Glauber Rocha, que parecia um pouco assim.

C&F - Como manteve o equilíbrio entre contar a história e apresentar as obras musicais?

Zelito - Tentar penetrar no interior de uma pessoa controvertida e complexa como era o Villa-Lobos. Foi isso que tentei transmitir ao espectador, a viagem dentro da cabeça de um criador, como é que funciona o momento da criação, esta ebulição que a pessoas tem dentro dela mesma. Tentar transformá-lo em um ser humano e não numa coisa mítica. Isso era o desafio que tínhamos permanentemente e o roteirista do filme, Joaquim Assis, neste ponto, tem uma contribuição fantástica, porque o roteiro do filme já trazia isso dentro dele. E os três atores, tanto o Marquinhos, quanto o Fagundes e o garoto, o André , conseguiram incorporar isso e passar para a tela.

C&F - Quanto do filme foi baseado na pesquisa e quanto na ficção?

Zelito - Acho que tudo que está no filme é mentira e verdade ao mesmo tempo. Quer dizer, tudo que está no filme é inventado, mas tem um pé na real. Muitas falas são do próprio Villa-Lobos. Foram traduções ipsis litteris daquilo que ele disse em entrevistas. E também os fatos e acontecimentos são todos fundamentados na relaidade, mas ao mesmo tempo todos são mentira e é isso que faz a magia do cinema.

C&F - No filme, ele fala do fato de a música dele ser popular e de nunca ter sido caracterizada desta maneira.

Zelito - Este é um aspecto dele que me lembra muito do Glauber Rocha. Quando fez O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, falou: "Mas isto é um faroeste, é um filme comercial" . E não tem nada a ver , mas na cabeça dele estava fazendo um filme extremamente popular. O Villa-Lobos também, na cabeça dele ele sua música era popular, quando obviamente não era. Eu, na verdade, acredito que só não é porque não é dada ao povo a possibilidade de ouvi-la . Muitas melodias dele foram usadas na música popular brasileira, sobretudo na de classe média, que vem com o Tom, Vinícius, Francis, Dori e Edu Lobo. Eles são filhos diretos de Villa-Lobos. Tom nunca escondeu isso de ninguém, com seus arranjos.

C&F - Você regravou as músicas para o filme?

Zelito - Foi tudo regravado com a Orquestra Sinfônica no Rio. Tem inclusive algumas obras, como o Noneto, que nunca foram gravadas no Brasil.

C&F - Como não foram gravadas no Brasil?

Zelito - É bem essa coisa de Brasil, um País que, em geral, trata muito mal seus artistas. É mais ou menos assim em todo mundo, mas é pior no Brasil porque têm o devido respeito que deveriam Ter. Por exemplo, para conseguir uma partitura dele é uma complicação. O Museu Villa-Lobos faz um trabalho muito grande mas não tem verba, tem pouco dinheiro quando devia ser uma instituição importantíssima. Villa-Lobos é o músico latino-americano mais importante do século e, no entanto, a dificuldade que tive em conseguir dinheiro para fazer o filme foi gigantesca. Ainda não há no Brasil a tradição de respeitar seus artistas. É triste ver, por exemplo, que a Orquestra Sinfônica Brasileira está morrendo, sem verba nenhuma, está completamente abandonada e com uma dificuldade enorme de sobreviver. A cultura no Brasil , de uma maneira em geral, é absolutamente relegada.

C&F - Como reagir a este desprezo de um país com uma força cultural tão grande?

Zelito - O potencial é gigantesco e é totalmente relegado. Basta você ver a força do Ministério da Cultura em relação aos outros ministérios para sentir como é tratada a cultura no Brasil.

C&F - Na sua opinião, é por isso que filmes como Chatô, por exemplo, tem sido perseguidos pelo Ministério da Cultura?

Zelito - Isso é uma bobagem. Em todas as atividades que for pesquisar existem problemas. Há coisas que foram mal feitas e outras que não. E no Brasil estas coisas são exageradas a um ponto que dá a impressão que é uma coisa orquestrada. Por que o cinema? Por que não fazem isso com a imprensa, que também está cheia de problema de desvio de verba e nota fiscal fria? Quem no Brasil não compra nota fria, e em qual atividade? Foram feitos cento e poucos filmes neste período e entre eles três ou quatro tiveram problemas. Isso é normal. Mas não quer dizer que o sistema esteja errado e que a atvidade toda seja culpada por isso. Mas isso faz parte um pouco da maneira como a cultura é vista e é tratada no Brasil.

C&F - Como vê o cinema brasileiro atual ?

Zelito - Existe um preconceito muito grande contra o cinema brasileiro. Até há pouco tempo saía assim nos jornais: filme tal, comédia, filme tal, drama, filme tal, brasileiro... filme nacional é um gênero?

C&F - Mas tem reconhecimento internacional.

Zelito - O cinema brasileiro teve um reflorescimento muito grande. Muitos filmes bons têm aparecido e de todas as áreas, barato, caro, experimental, comercial, ou seja, um leque de produções bem diversificado e interessante, e com problemas como todas as atividades. No entanto, eu acho que está em um momento perigoso, porque a Lei do Audiovisual, que possibilitou este reflorescimento, está num período de inflexão. Ela não pode ser o principal fator da produção de um filme, tem que ser complementar. É preciso surgir novos mecanismos para a área de financiamento da produção. Cinema é caro. Se a sociedade brasileira está interessada em que haja cinema brasileiro, é preciso que seja financiado.

C&F - Qual seria a solução?

Zelito - É preciso Ter algo como a Embrafilme. É como citar o nome que parece palavrão. A Embrafilme chegou a ser uma empresa forte que tinha 400 ou 500 títulos com direito de venda para o mundo inteiro. É uma empresa que podia estar hoje com a penetração internacional e, no entanto, foi jogada às baratas. Foi fechada como uma coisa ruim quando na verdade era ótima.

C&F - E você culpa alguêm?

Zelito - Não. Foi um círculo que se encerrou. Eu nunca fui muito a favor de fechá-la, mas os próprios cineastas brasileiros – a grande maioria deles – eram a favor e nem sei por quê. De qualquer maneira foi um erro. Acho que algo parecido tem que ser refeito no Brasil. Algum organismo , alguma entidade que conheça o cinema profundamente e que passe a cuidar dele. É preciso voltar aos mecanismos de controle de exibição, da atividade, do selo para videocassete, toda essa disciplina do mercado.Todo este histórico do cinema brasileiro foi perdido com a extinção da Embrafilme. E é isso que gerou esta distorção que está hoje na Lei do Audiovisual. Então a solução é por aí.