Crítica de Zuenir Ventura para revista Época



      Um Filme e uma Vida para redimir o presente


      O caso do brasileiro que gostava de ser brasileiro


           Se você é um daqueles brasileiros que andam com a auto-estima no pe?, se está se sentindo perdido num universo em desencanto, se acha que as coisas não têm mesmo jeito e não agüenta mais tanta corrupção, se, a exemplo de Pelé, você está com "vergonha do país" ou cansado de "tanta sujeira", como o presidente da República, se enfim não quer nem comemorar nossos 500 anos por falta de motivação cívica, aceite um conselho: vá ver Villa-Lobos Uma Vida de Paixão, de Zelito Viana.

           O filme, pela qualidade, nos redime do presente e nos reconcilia com o passado, devolvendo-nos hoje um daqueles personagens extraordinários cuja grandeza nos enche de orgulho de ser brasileiro: um artista que, segundo o pianista Arthur Rubinstein, "tem todas as características de um gênio musical", um compositor que misturou Bach com acordes de chorões e seresteirose se embrenhou pela Amazônia para transformar em sons universais o canto de nossos pássaros, os ecos e rumores de nossos rios e matas, o batuque dos negros, o tambor dos índios -a alma cósmica e selvagem do Brasil.

           Aliás, sai-se do cinema com a alma lavada, pelo filme mesmo e por seu herói. Algumas das tiradas do genial e genioso maestro, certas afirmações de nacionalidade, a soberba de ser brasileiro, apesar de nem sempre o país ter correspondido a sua paixão, a consciência do próprio talento, o temperamento provocador e explosivo, sua ruptura com a mentalidade atrasada e colonizadora de nossas elites culturais, tudo isso, se não bastasse a obra, nos dá a certeza de que o Brasil tem uma invejável capacidade de criar seres de exceção e, muitas vezes, de maltratá-los.

           Não foi nada fácil a relação entre esses dois personagens problemáticos: o compositor e o objeto de seu amor, o Brasil. Já não se fala do crítico que o mandou afastar-se da música "para o bem de todos" ("Aquilo não é arte, aquilo não é música, aquilo não é nada"), pois seus sons deviam ser "executados por epiléticos e ouvidos por paranóicos".

           Fala-se dos brasileiros que não gostam de ser brasileiros. "Eu gosto, e é por isso que eles não gostam, de mim, claro", diz Villa, cheio de humor vingativo, num quarto de hospital nos Estados Unidos, cercado de repórteres e artistas. "Vivem querendo acabar comigo; é interessante, metem o pau em mim sem parar, lá no Brasil, não param nem pra ir ao banheiro. Mas eu volto pra lá. Saio e volto".

           Ai de quem, porém, falasse mal do Brasil perto desse sonhador que tinha um fantástico projeto de educação musical ( "ensinar o mundo inteiro a cantar"). Uma das cenas mais engraçadas do filme se passa em Paris, quando o compositor, todo orgulhoso, oferece a convidados estrangeiros "um monumento de minha terra", a feijoada. Ao ver aqueles pedaços de carne boiando no feijão, um francês não se conteve, horrorizado: "Mais c?est la merde". A reação imediata do anfitrião foi atirar-se sobre ele, tentando agredi-lo: "La merde c?est vous, veado."
           

           Villa Lobos era assim: fazia parte daquela brava estirpe de brasileiros que, por seu engenho, atitude e arte, se tornam matrizes fundadoras colonizam o colonizador.

       

      ZUENIR VENTURA



    Carlos Reichenbomber para revista Época

     

      CARTAS DO REICHENBOMBER

      Opus 37



           Ha três dias eu vinha tentando assistir MAGNÓLIA de Paul T. Anderson e as sessões lotadas me fizeram optar por atividades e filmes não programados. Hoje, domingo 23, consegui, em um multiplex próximo à minha casa, dois lugares em uma das salas onde estava sendo projetado um filme brasileiro. As críticas ao referido filme não vinham sendo das mais entusiasmadas, assim, eu e minha mulher, entramos na sala de projeção sem grande expectativa.

           O fato do cinema lotar em poucos minutos nos deu uma grande alegria e de certa maneira nos sentimos, com certa vergonha, temerosos por qualquer reação negativa do público no caso do filme decepcionar. Reconhecemos na platéia um casal que mora em nosso prédio o que, de certa maneira, aumentou ainda mais a nossa angústia.

           Eu havia recebido convites, dias antes, para a pré-estréia do tal filme, mas como a projeção era na cabine do hotel Maksoud Plaza, preferi esperar a reação de amigos e críticos que respeito. Não entendo como produtores e realizadores aceitam exibir seus filmes no teatro do Maksoud. O som é péssimo e a projeção sofrível. Lembro de ter visto, durante uma das Mostras Internacionais do Leon Cakoff, um filme em cinemascope (La Pirate, de Jacques Doillon) com metade da imagem na tela, ou seja, num écran panorâmico que não aceitava a imagem larga.

           Duas horas depois, encerrada a sessão na sala do multiplex, alguns sentimentos assolaram a mim e minha mulher. Primeiro, a emoção de ter acabado de assistir um filme de extrema dignidade. Segundo, a perplexidade diante da absurda má vontade dos analistas de plantão com uma obra que, se não prima pela invenção, esbanja elegância e profissionalismo.

           Merda! Vivem cobrando do cinema nativo o diálogo com o público; perde-se fosfato e gramática com filmécos vazios, que não acrescentam nem informam nada; quando um filme arrisca trazer a tona a obra e a vida de um gênio brasileiro, sem nenhum prurido de mostrar o lado mais frágil de sua personalidade, e por isso mesmo, tornando-o mais humano e relevante, o que se lê é que, apesar de bem feito e intencionado, o filme não emociona. Não emociona à quem? O que eu vi foi um cinema lotado soluçando em vários momentos, rindo em outros, permanecer sentado durante os infindáveis créditos finais e sair da sala com uma expressão única e lívida de satisfação, valorizando cada centavo gasto nos doze reais do custo do ingresso.

           Como disse meu vizinho, na saída do shopping, "eis um filme brasileiro e mundial que vale por uma aula de história e de arte, que nos toca o coração". Babaca? Babaca é o cretino que não se permite o sonho e a magia da inspiração.

           Pois bem, ilustres bombers, VILLA-LOBOS, UMA VIDA DE PAIXÃO, de Zelito Viana, pode não ser o filme brasileiro que vai mudar o rumo da história, mas é uma obra plena de integridade e que cumpre totalmente aquilo que é cobrado sistematicamente na cinematografia nacional: engenho, arte, informação e respeito ao público.

           Que não se espere um filme modernoso e repleto de inovações. Sei lá porque, lembrei dos melhores filmes americanos de Andrei Konchalovsky, MARIA´S LOVER (Os Amantes De Maria - 84), DUET FOR ONE (Sede De Amar - 86) e SHY PEOPLE (Gente Diferente - 87). Sei que muita gente torce o nariz, mas eu gosto deste filmes, porque representam perfeitamente a diferença entre o cinema clássico e o acadêmico. Trata-se de um cinema que corre todos os riscos de naufragar em sua dramaturgia rigorosa, quando não solene, e onde a gramática cinematográfica é submetida ao crivo da encenação.

           Retratar a vida de pessoas mortas com herdeiros ainda vivos é uma empreitada labiríntica, quase sempre ingrata. Pior ainda, reduzir uma vida inteira às duas horas de um pretenso entretenimento, sobretudo quando o projeto almeja algum status histórico e cultural. É comum desconfiar que por trás de tanta pretensão se esconde alguma jogada esperta envolvendo dinheiro à rodo e cujo produto, normalmente, acaba se revelando inócuo, mesmo que a fartura apareça na tela.

           Os revezes que acompanharam a produção de VILLA-LOBOS estimulavam um certo pessimismo em relação ao resultado final.

           Pesava ainda nas costas de Zelito Viana a genialidade do compositor-personagem. Um desafio crucial vencido pelo diretor ao transformar o mito em um ser humano na plenitude de suas fragilidades. Individualista, arrogante, muitas vezes rude e grosseiro, mas sempre audaz, criativo e à frente do seu tempo, VILLA-LOBOS é imantado na tela pela inspirada interpretação de Antônio Fagundes; de longe seu melhor trabalho em cinema.

           Assim como Konchalovsky, Zelito Viana dá espaço suficiente para que seus atores mergulhem de corpo e alma em seus personagens. Ana Beatriz Nogueira está sublime como a primeira mulher do compositor. Mas a surpresa realmente inesperada é a participação do ator José Wilker, como Donizetti, o músico andarilho. Wilker, que vinha se aprimorando no equivocado papel de si mesmo nos últimos trabalhos, irrompe na trama de tal forma despojado e possuído de raiz que faz enorme sombra aos que com ele contracenam, incluindo o, quase sempre, ótimo ator Marcos Palmeira. Aliás, é uma pena que, nem Palmeira, nem os demais protagonistas, cheguem ao nível de grandeza de Fagundes, Ana Beatriz e Wilker. Mas credite-se ao diretor a ingrata tarefa de dirigir o próprio filho numa empreitada tão complexa. Nem (ou muito menos) Villa Lobos, o genial, cabotino e irascível criador, teria feito melhor.

           A coluna esta semana fica por aqui. O Bomber está feliz por ter gostado, e muito, de um filme tão doloroso de ser realizado e um personagem tão difícil de ser amado. Assistam VILLA-LOBOS sem a urgência dos compromissos. Quando entrarem no cinema, desliguem os celulares e escondam os relógios. Permitam-se a imanência da música mais bela deste país e a generosidade na compreensão dos descaminhos que a inspiraram.

           Eis uma vida que valeu a pena ser vivida, filmada e conhecida. Eis um filme digno, profissional, sensível, que superou as limitações de sua produção tempestuosa com bom senso e integridade. Obrigado Zelito por não ter se submetido à linguagem da televisão. VILLA-LOBOS, o filme, é cinema puro, na dimensão da tela larga, na imperfeição de seus tempos nunca óbvios e na emoção genuína do herói transformado homem.



      CARLOS REICHENBACH